terça-feira, 15 de maio de 2012

Maio em matizes

Vento que sopra
pelo tempo que resta
ímpeto que empresta
outro verso a esta prosa

Rosa que posa
pra o sol nessa festa
e testa quem lhe gosta
pra não ter sua siesta

Se esta brisa fosse orquestra
e essa lua fosse nossa
entoaria a ti em bossa
o que Beethoven disse ao luar

E há quem diga que virá
uma cantiga antiga e exposta
pra decifrar sem rima imposta
o que a risca da vida riscará.

sábado, 7 de abril de 2012

O caminho das flores

Ontem eu parti
uma corda em meu violão
Partir é sempre uma ilusão
Pra onde havemos de ir afinal?

Ontem pensei num final
onde eu fosse feliz sem razão
feliz só por ser
e percebi que há uma direção
pra esse rio correr
na contramão não há viver

Mas hoje estendi a mão
e reergui um coração
eu vi alguém sorrir
e reencontrar a direção
e tive meu vazio
por um instante povoado

É que só há um lado
nessa estúpida questão

Ontem ouvi outra canção
e pus versos perdidos
todos juntos enfim
deixei-os sair
pus num papel
e me aprontei
pra quando o amanhã chegar.

sábado, 24 de março de 2012

Fevereiro e Março

Tive fé em fevereiro
que esse seria o primeiro
a passar dos vinte e nove

Mesmo sabendo o roteiro
desse espetáculo inteiro
enquanto o mundo se move

Movimentei-me sem medo
rumo ao topo do rochedo
de onde se vê mais longe

Vi a lua vir mais cedo
vi o sol em desenredo
tingir mais leve o horizonte

Ante o estonteante mar
vi o céu se derramar
nas gotas do azul sublime

E a mim coube averiguar
se o sol se jogou no mar
ou foi da noite um crime

Vi em cada verso um laço
me rendi ao embaraço
da tangente inspiração

E já que ainda há espaço
eis as palavras de março
e assim fechamos o verão.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Biografia

Somos feitos
do que fazemos
do que queremos
do que dizemos

Das flores que mandamos
das pessoas que amamos
e dos amores que não temos

Somos feitos do que fomos
e de onde viemos
das ruas em que brincamos
das músicas que compusemos

Somos feitos do que perdemos
e do que vez em quando achamos

Somos feitos do que rabiscamos
dos cadernos que escrevemos
das bobagens que falamos
das brigas que tivemos

Somos feitos dos enganos
dos prematuros planos

Somos feitos do que vimos
das estrelas que contamos
das noites que choramos

Dos dias que recomeçamos
dos sóis que esperamos

Somos feitos do que pensamos
e até do que não fomos

Somos feitos do que somos
e do que estamos sendo.

domingo, 20 de novembro de 2011

Perto de tudo

E eu continuo a pairar
por essa cidade
buscando um pousar
pra repousar minha ansiedade

Que meu coração cansado
já se apercebe do estrago
que faz a tal verdade

Mas quero vista pra um mar
de felicidade
com brisa a encher
minha sala e minha'lma

E quero janela pra o nascente
do novo sol em minha vida
inundando de luz o quarto
e todo espaço
que já não quer silêncio e sombra

Quero uma varanda ampla
de onde eu possa enxergar longe

E que tenha portas largas
da largura do horizonte

Sim, eu continuo a esperar
aquilo que chamam lar
a enlarguecer minha vontade

Intensa e singular
de poder, sim, estar
enfim, perto de tudo.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ródano

Deve haver um lugar
um pedaço de céu
pra cada estrela

Ardentes supernovas
tão frias ao longe
no silêncio da noite

E deve haver um lugar
pra cada coração
errar o compasso

Eventualmente, e sorrir
e chorar
num canto, só

E pode ser que por dó
ou por medo
ou sem razão

Haja sempre uma canção
pra entorpecer a solidão

Sim, há de haver uma razão
que só se enxerga são
e aqui são todos sóis

Mas deve haver um lugar
debaixo do céu
pra cada um de nós.

...

Noite Estrelada Sobre o Ródano

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Firmamento

Nuvens correm pelo céu
da noite parca de estrelas
e quem poderá detê-las
quem poderá?

Às vezes feitas do véu
às vezes muitas centelhas
quem lhes fará ovelhas
quem lhes fará?

As sobras de um novo réu
cativo das formas gregas
quem lhe trará cerejas
quem lhe trará?

Habitat do fogaréu
no escarcéu da peleja
quem obstará que seja
quem obstará?

Na hora final do fel
o mel a boca almeja
quem não virá pureza
quem não virá?